28 agosto 2009

Atravessamos a ponte e começa a cidade

Atravessamos a ponte e começa a cidade.

Entre ruas cinzentas e vielas húmidas,
organiza-se o medo dos bairros pobres
e dos bairros ricos que determinam o mar
morto que se estende sob as suas janelas
grandes e brilhantes como a tua cintura de alcatrão .

Porto,
o sol quando brilha arranca casais das casas

Porto,
as casas como corais apodrecidos

Porto,
o ar poluído e as árvores mortas

Porto,
casas vazias cheias de memórias

Porto,
difícil recordar antigos caminhos

Porto,
loucos alheados olhando o infinito

Porto,
ruas de dificuldade sob copas de granito

Porto,
operações stop à entradas dos bairros

Porto,
nas tuas pedras lavradas palavras proferidas

Porto,
poetas bêbedos gritando ódio ao infinito

Porto,
capitalistas magros e bronzeados procurando a moda

Porto,
tias chiques morrem lentamente em Mercedes presos
                                                                      no trânsito

Porto,
sentado numa esplanada da baixa recordo as ruas
                                                              de Barcelona

Porto,
tempo perdido e palavras sacrificadas no nada

Porto,
para onde mais posso ir em ti para fugir de mim

Porto,
um mar poluído e uma areia imunda de anos tristes

Porto,
portas fechadas e cortinas corridas para melhor espreitar

Porto,
bairros burgueses e calmos longe do centro

Porto,
uma fotografia desfocada de quem mendiga a paixão.

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