Atravessamos a ponte e começa a cidade.
Entre ruas cinzentas e vielas húmidas,
organiza-se o medo dos bairros pobres
e dos bairros ricos que determinam o mar
morto que se estende sob as suas janelas
grandes e brilhantes como a tua cintura de alcatrão .
Porto,
o sol quando brilha arranca casais das casas
Porto,
as casas como corais apodrecidos
Porto,
o ar poluído e as árvores mortas
Porto,
casas vazias cheias de memórias
Porto,
difícil recordar antigos caminhos
Porto,
loucos alheados olhando o infinito
Porto,
ruas de dificuldade sob copas de granito
Porto,
operações stop à entradas dos bairros
Porto,
nas tuas pedras lavradas palavras proferidas
Porto,
poetas bêbedos gritando ódio ao infinito
Porto,
capitalistas magros e bronzeados procurando a moda
Porto,
tias chiques morrem lentamente em Mercedes presos
no trânsito
Porto,
sentado numa esplanada da baixa recordo as ruas
de Barcelona
Porto,
tempo perdido e palavras sacrificadas no nada
Porto,
para onde mais posso ir em ti para fugir de mim
Porto,
um mar poluído e uma areia imunda de anos tristes
Porto,
portas fechadas e cortinas corridas para melhor espreitar
Porto,
bairros burgueses e calmos longe do centro
Porto,
uma fotografia desfocada de quem mendiga a paixão.
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